R$ 165 mil para associação que não tem nem geladeira

Investimentos de R$ 165 mil condizem com as imagens apresentadas nesta matéria? Pode até parecer incoerência, mas esta quantia foi repassada pela Assembleia Legislativa às mãos do ex-deputado estadual Raimundo Lima Vieira, o “Mundinho da Comase”, que é responsável pela Associação de Proteção à Assistência e Maternidade Infantil de Itabaianinha, no Centro-Sul sergipano. O local, que não possui nem uma geladeira, atende pouco mais de 25 crianças da comunidade, que ficam aos cuidados de uma “professora” e uma servente. O dinheiro foi destinado através da chamada verba de subvenção que cada deputado tem direito.

Localizada na rua José Hélio Macedo, na cidade sede do município, a casa, que é alugada, funciona como creche para filhos de moradores pobres da região. Por fora, tijolos à mostra e uma velha fachada afugentam a possibilidade de que ali seja um espaço utilizado como educandário. A não ser pela presença de algumas velhas carteiras e de alguns rabiscos nas paredes, a realidade por dentro do velho prédio distorce totalmente de algo que seja assemelhado ao que estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente em relação aos tratos a esses pequenos.

Nem mesmo a alimentação é cuidada com zelo pela associação. A dispensa da cozinha estava vazia no momento da matéria, e as crianças, ali presentes, saciavam sua sede em um velho bebedouro de barro, já que o local não possui geladeira ou freezer. Bolacha seca com água era a única refeição até o momento. Já passavam das 11h30 e alguns pais estavam presentes para buscar seus filhos. “Meu filho tem três anos e ele passa a manhã toda aqui. Gosto do tratamento das professoras e não tenho nada a reclamar. Deixo de manhã cedo e pego ao meio dia”, conta Josefa das Virgens, sem saber o quê seu filho tinha lanchado horas antes.

A informação do cardápio foi passada sem dificuldades pela funcionária Maria Neta de Jesus, que é responsável pela preparação da merenda. “Era o que eu tinha para dar hoje. Mas no ano passado a merenda era fornecida pelo governo e chegava tranquilamente. Não sei por que até agora não chegou. Dona Silvia, que é mulher de Mundinho, está resolvendo a papelada e no mais tardar vai voltar à normalidade”, conta a senhora que diz trabalhar há mais de nove anos para a família. “Aqui tem 30 meninos. Eram dois turnos, mas agora é só um. A professora não quis mais, aí dona Maria não colocou mais ninguém. Por enquanto é só uma e eu ajudo a tomar contas das crianças”, detalha.

Outras atividades

Encarregada também de outras atividades, dona Maria Neta diz que o local é alugado ao preço de R$ 500 mensais. Ela fala que a creche já existe há mais de dez anos e que mudou de endereço algumas vezes. “A nossa responsabilidade aqui é brincar com a criançada. Passar o tempo. Faço merenda, entrego e recebo. Tomo conta de todo mundo. Aqui mesmo, nesta casa, estamos há uns dois anos. Mudamos da antiga que era menor. O motivo foi porque o dono queria”, relembra.

Com relação à falta de geladeira, dona Maria ponderou que a antiga quebrou o motor e até agora não tinham providenciado outra. Quando não está nos afazeres da cozinha, dona Maria auxilia a outra funcionária da casa, que tem a função de professora, mesmo não tendo o curso pedagógico. A jovem, que tem pouco mais de 20 anos, não apresenta o grau de instrução necessário para lidar com as crianças.

“Ano passado fiquei quatro meses, e agora, mais dois. Estou começando agora, me adaptando. Era tudo bagunçado aqui. Fiquei poucos meses, até que a menina (antiga professora) saiu. Eu não sabia nada e estou pegando agora, tudo do zero. Estou pegando os meninos analfabetos. Os meninos não sabem ler, não sabem nada não. Pego na mão pra ensinar a eles cobrir as letras, ensinando as vogais”, detalha a jovem, que tem apenas o ensino médio do curso científico. Tanto ela, como Maria Neta, não têm carteira assinada e recebem R$ 200 mensais como “gratidão”.

“Trabalho um turno. Entro às 8 horas e saio ao meio dia, quando os pais dos meninos começam a chegar”, explica.

A mulher de Mundinho, Maria Silvia, explica que a creche, na verdade, é uma associação que funciona desde 1995 e que os recursos são baixos para custear os trabalhos. “Nós temos uma escola, que antes funcionava dois turnos, mas devido aos recursos serem muito poucos, passamos a funcionar em um só. Pago professores, aluguel, água e luz. Tem um custo. Chega a mais ou menos R$ 2,5 mil mensais. Também trabalho lá, mas não sou remunerada. Trabalho como voluntária na administração”, justifica.

A reportagem do JC chegou a conversar com o ex-deputado. Ele garantiu que não há qualquer irregularidade da associação em receber recursos da Assembleia via subvenção. “São mais de 400 associações em todo o Estado, porque só a minha que está com alguma coisa errada? Sei de onde parte esse tipo de denúncia. Infelizmente é essa a política de Itabaianinha”, comentou Mundinho da Comase, afirmando que a responsabilidade pela apresentação da prestação de contas é da Assembleia.
Fonte: Jornal da Cidade

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