Caso Jonatha: crime continua insolúvel


Polícia revela contradições em laudos e inocenta policiais
Evangelista e Katarina: inocência a policiais(Fotos: Cássia Santana/Portal Infonet)
A entrevista coletiva convocada para apresentar os resultados das investigações policiais que desvendariam o mistério do assassinato do adolescente Jonatha Carvalho dos Anjos, 16, provocou novas dúvidas. Além de não indicar a autoria do crime, o delegado Jonathas Evangelista e a superintendente da Polícia Civil, Katarina Feitoza, identificaram outros elementos fruto das investigações que só aumentam o grau de incertezas e contradições existentes até mesmo nos próprios laudos periciais contidos no inquérito policial.

Nem mesmo o local do crime foi revelado. Segundo o relatório do inquérito, Jonatha Carvalho não foi morto no confronto. Segundo o delegado, o adolescente não ocupava o veículo onde os três foram abatidos em Japoatã, apesar de existir testemunhas que viram [embora não o identificassem] uma quarta pessoa no carro alvo da abordagem policial.
Familiares: choro, angústia e revolta
O inquérito policial indica, conforme revelado na coletiva, que o adolescente teria sido assassinado em um local antes, no sentido Neópolis/Aracaju, da barreira policial, pela qual teriam passado outros veículos.

O próprio delegado Jonathan Evangelista, que coordenou as investigações, observou que o primeiro laudo pericial levantou hipótese do homicídio ter sido cometido em outro local que não aquele no qual o corpo foi encontrado [às margens da rodovia em Neópolis, no dia 24 de março], levantando suposições sobre uma suposta desova do corpo do adolescente. “O laudo supõe a desova, mas não é conclusivo e não dá a certeza que o adolescente foi morto em outro local”, observou o delegado, em conversa com o Portal Infonet, após a coletiva.

Na coletiva, o delegado também descartou a possibilidade de tortura e do corpo ter sido carbonizado, conforme revelações feitas em um dos laudos periciais. Segundo o delegado, as queimaduras apresentadas foram consequência da exposição do corpo ao sol por longo período e que os ferimentos encontrados teriam sido produzidos por arma de fogo. A família rebate. “Meu filho não estava exposto, meu filho estava escondido”, reagiu Patrícia Ayres. “Meu filho foi morto na mesma hora, naquela barreira, e eles ocultaram o cadáver. Se ele tivesse sido morto no local onde foi encontrado, os urubus e os trabalhadores da região teriam localizado antes”, comentou.

Motoqueiros
Jonathas Evangelista: prisão de Bisqui
O fato novo apresentado pelo delegado na coletiva está relacionada à presença de uma motocicleta que teria furado a barreira policial naquele 13 de março, momentos antes de ocorrer o suposto confronto que culminou com a morte de Anderson de Jesus Oliveira, Ricardo André Carvalho Pimentel, o ‘Fofo’, e Eraldo Santos de Jesus, conhecido ‘Mago’.

O delegado informou que dois homens suspeitos ocupavam aquela motocicleta e um deles seria o pivô para desvendar o latrocínio do qual foi vítima o PM Elder, ocorrido no dia primeiro de março deste ano, e também o misterioso assassinato do adolescente Jonatha Carvalho. Este rapaz, que, segundo a polícia, permanece foragido, foi identificado como Wanderson José dos Santos Silva, conhecido como Bisqui.

O delegado informa que a barreira não foi desfeita no momento em que a motocicleta passou com seus ocupantes gritando ‘vaza, vaza’ porque tinham a missão de encontrar Eraldo [tido como principal suspeito pela morte do PM Elder] e que eles tinham certeza que estaria no veículo que fora abordado em seguida.
Bisqui: pivô para desvendar mistérios
E, segundo o delegado, só depois de desmontar a barreira e prestar socorro aos rapazes feridos no suposto confronto é que os policiais realizaram diligências para tentar localizar o veículo suspeito, mas não teriam obtido êxito.
Sem identificar a autoria do crime nem revelar o local exato onde teria ocorrido o assassinato de Jonatha Carvalho, o inquérito policial será encaminhado à Justiça ainda nesta sexta, 24, segundo anunciou o delegado Jonathas Evangelista. Mas a SSP permanecerá à disposição do Poder Judiciário e do Ministério Público Estadual para realização de novas diligências, conforme fez questão de frisar o delegado. “E vamos continuar checando para prender Bisqui, que pode ajudar a esclarecer o latrocínio do PM Elder e também a morte de Jonatha”, disse o delegado Jonathan Evangelista.

Revolta

Os resultados anunciados pela polícia nesta manhã abrem uma nova suspeita. Seriam os três mortos no suposto confronto os responsáveis pelo latrocínio do PM Elder, ocorrido no dia primeiro de março? Foi este latrocínio que levou a polícia a desencadear a operação realizada por agentes da 9ª Delegacia e policiais militares no dia 13 de março, data em que o adolescente Jonatha Carvalho desapareceu na companhia de pelo dois daqueles que foram mortos no suposto confronto ocorrido em Japoatã: Anderson e Ricardo.
Anderson Cortêz: cautela e análise dos autos
Familiares de Jonatha, de Ricardo e Anderson [os dois últimos mortos no suposto confronto, segundo concluiu a polícia] acompanharam com indignação a divulgação do relatório do inquérito policial feita pelo delegado Jonathan Evangelista e pela superintendente da Polícia Civil, Katarina Feitoza.

Os familiares não esconderam as lágrimas enquanto ouviam o delegado inocentar os policiais envolvidos naquela operação do dia 13 de março e choraram muito. “A gente sabe que tudo isso é mentira. Recuso-me a permanecer nesta sala”, desabafou, entre lágrimas, Rosivaldo Araújo. “Não temos dúvida que meu filho foi morto pelos policiais naquela operação, vou apresentar a lista de todos os envolvidos que são os principais suspeitos”, gritou Rosivaldo.

A mãe de Jonatha, Patrícia Ayres, ficou indignada antes mesmo do momento em que o delegado Jonathas Evangelista iniciou a leitura do relatório do inquérito policial. Com base nas informações contidas em um release prévio distribuído à imprensa pela Assessoria de Comunicação Social da SSP, Patrícia Ayres foi enfática. “Isso não existe. As mesmas pessoas que executaram aqueles três que estavam no carro foram as mesmas que executaram meu filho”, disse, numa clara reação à ausência de informações sobre a autoria do crime.
Advogado ampara familiares no momento da leitura do relatório
Ela promete buscar apoio do Ministério da Justiça para desvendar a morte do filho. “Vou a Brasília, vou buscar apoio do Ministério da Justiça e até do Supremo [tribunal federal] e ainda vou denunciar tudo em rede nacional mostrando que a investigação é nota zero”.

Dona Maria das Graças Pimental, mãe de Ricardo e nora de Anderson [que morreram no suposto confronto do dia 13 de março] e tia de Jonatha Carvalho também não escondeu a emoção e coloca mais uma interrogação nos procedimentos da polícia civil. Ela também tem dúvidas quanto à participação de Ricardo e de Anderson e do próprio Eraldo na morte do PM Elder. “Meu genro nunca teve passagem pela polícia”, diz.

Ela garante que o genro, Anderson Oliveira, que estaria trabalhando com fretes, teria sido contratado pela mãe de Eraldo para pegá-lo em Neópolis e transportá-lo até a casa dela, em São Cristovão. E, com este objetivo, os três [Ricardo, Anderson e Jonatha] teriam saído de Aracaju naquele 13 de março com destino a Neópolis e, no retorno, os quatro teriam sido executados pela polícia. “Não foi encontrada arma nem droga, como eles disseram antes”, diz a senhora. “Agora, eles disseram que quem matou o policial foi Alfran, Bisqui – que está foragido – e uma tal Cristiane, que está presa, segundo eles”, comentou.

Para a família, o quarto rapaz visto no veículo que parara na residência de Eraldo em Neópolis, naquele dia 13 de março, para pegá-lo seria efetivamente o adolescente Jonatha Carvalho. Fato negado pela polícia. Para o delegado, não se tratava de Jonatha, o terceiro rapaz visto no veículo em Neópolis, antes de Eraldo ocupar o carro.

O delegado Jonathan Evangelista garante que não encontrou testemunhas que reconhecessem este outro rapaz e que a prisão de Bisqui seria eficaz para elucidar o latrocínio contra o PM e também a morte de Jonatha.

Coletiva

Ricardo e Eraldo se conheceram no presídio, segundo dona Maria das Graças. Eles cumpriram pena por diferentes crimes. Eraldo teria saído do presídio antes de Ricardo, que foi solto neste ano – cerca de um mês e dez dias antes do suposto confronto com a polícia. Ricardo Pimentel teria cumprido sentença de quatro anos e três meses no presídio de São Cristovão por envolvimento em um homicídio. A mãe dele garante que o tiro teria sido disparado de forma acidental. “Ele matou o coleguinha na porta de casa. O coleguinha estava mostrando a arma a ele”, diz dona Maria das Graças. “Mas meu genro [Anderson] nunca teve passagem pela polícia”, complementa.

O advogado Anderson Cortêz foi contratado pela família dos quatro rapazes mortos. Ele informou que receberá cópia dos inquéritos na tarde desta sexta-feira, 24, e passará todo o final de semana analisando os autos. Na segunda-feira da próxima semana, 27, ele pretende reunir familiares dos quatro jovens mortos em uma entrevista coletiva a ser concedida na Assembleia Legislativa às 7h30.

Ele explica que o episódio foi desmembrado em duas investigações: uma dirigida para a morte do adolescente Jonatha Carvalho e o outro relacionado ao suposto confronto ocorrido no dia 13 de março. Cauteloso, o advogado Anderson Cortêz prefere não se pronunciar neste momento. “No final de semana vou me debruçar nas peças que vou receber da polícia ainda hoje [sexta, 24] para fazer uma análise detalhada e aí poderei fazer comentários incisivos com base nos autos”, resumiu.

Por Cássia Santana

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